Lembra-se dos dias em que o mundo já sabia que havia um surto de Covid‑19 em Wuhan e que ele se espalhava rapidamente, mas ainda não estávamos em quarentena? Um momento intermediário, em que era claro que uma catástrofe estava a caminho, mas ainda não se sabia o que isso significaria. Esta fase do ataque ilegal dos EUA e de Israel ao Irão é um momento equivalente. O choque já chegou. As ondas de choque estão a caminho.
Um quinto, um terço, um terço, dois quintos, quase metade – estas são as respetivas participações nas exportações globais de gás natural liquefeito (GNL), petróleo bruto, fertilizantes, hélio e enxofre que normalmente passam pelo Estreito de Ormuz. A nossa investigação mostra que estes são recursos essenciais dos quais a economia mundial depende. Os combustíveis fósseis são, de longe, os insumos mais sistemicamente significativos num capitalismo ainda predominantemente movido a combustíveis fósseis. A produção de alimentos depende dos fertilizantes. O hélio e o enxofre são necessários para a produção de microchips, que, por sua vez, são imprescindíveis para tudo, desde corta-relvas até centros de dados que sustentam o boom da Inteligência Artificial. A circulação destas matérias-primas – fundamentais para produzir tudo o resto – tem estado efetivamente suspensa desde o início da guerra.
Economia
Quem ganha e quem perde com a crise energética - e como redistribuir a fatura?
Uma das lições da crise de abastecimento de bens provocada pela Covid foi que até mesmo um bloqueio momentâneo de fluxos comerciais gera enormes perturbações. Lembra‑se das imagens dos engarrafamentos nos grandes portos? Agora adicione o lado da produção a isso. Como os depósitos locais de petróleo e gás ficaram cheios atrás do Estreito de Ormuz, vários locais de produção tiveram de cessar a produção, encerrando. A oferta não só desacelera, ela simplesmente deixa de existir. E não se pode voltar a ligar poços de petróleo ou refinarias da noite para o dia – isto pode levar semanas ou meses. Além disso, a infraestrutura de produção e de transporte foi danificada. E, como o fertilizante é produzido a partir do gás, e o enxofre e o hélio são subprodutos da produção de petróleo e gás, estes produtos químicos também deixaram de ser produzidos.
No momento em que escrevemos, a guerra está a escalar, com ataques à produção de petróleo e gás depois de ataques de Israel terem atingido o campo de gás iraniano de South Pars, o maior do mundo, e de o Irão ter retaliado com ataques à fábrica de Gás Natural Liquefeito (GNL) em Ras Laffan, eliminando cerca de 3,5 % da produção global de GNL nos próximos três a cinco anos.
Não se sabe ainda quando o Estreito de Ormuz poderá restabelecer totalmente o tráfego de navios, mas uma coisa é certa: um golpe está a caminho da economia global através das cadeias de abastecimento, independentemente de quão cedo a guerra termine.
Os consumidores europeus e estadunidenses estão, ainda, relativamente protegidos, mesmo que já vejam os preços da gasolina elevados, o que impõe um pesado custo às famílias. A magnitude completa dos efeitos que ainda virão permanece oculta na complexidade da rede global de abastecimento. Eis um vislumbre do que pode aparecer: inflação, choques de redistribuição, escassez, estagflação e instabilidade financeira mundial.
Até agora, apenas os preços das matérias-primas essenciais dispararam (petróleo, gás, fertilizantes, etc.). As empresas que compram estes insumos, mas não podem influenciar o preço dos seus produtos, devem absorver o custo ou deixar de produzir, como já fizeram muitos produtores de pequena escala, por exemplo, pescadores nas Filipinas que não podem mais arcar com o combustível ao dobro do preço.
Entretanto, a maior parte da economia global de hoje é comandada por empresas gigantes que definem seus próprios preços, e a nossa investigação mostra que estes tipos de choques de custo as ajudaram a coordenar aumentos de preços entre elas. Elas não absorveram o custo da pandemia e da guerra, mas passaram-no para os consumidores, protegendo as suas margens e aumentando os seus lucros no processo. Isto é a inflação dos vendedores [«sellers’ inflation»]. As empresas transmitem explosões de preços dos insumos essenciais por toda a economia através da sua própria fixação de preços, provocando, em última análise, inflação.
Esses aumentos de preços por parte das empresas tornam-se ainda mais fáceis quando os insumos não são apenas mais caros, mas também escassos. Isso concede às empresas um monopólio temporário. Durante a escassez de chips de computador na era Covid, cada empresa automóvel só podia produzir tantos carros quantos chips tinha, de modo que os clientes que esperavam meses por um novo veículo não podiam fugir dos preços elevados nem mudar de fabricante – e as empresas automóveis colhiam lucros extraordinários. Além disso, quando os preços dos insumos caem, os preços ao consumidor tendem a permanecer altos, ou a cair menos, gerando mais uma ronda de lucros extraordinários.
De seguida, a inflação dos vendedores significa redistribuição do trabalho para o capital e, em última instância, para os mais ricos dos ricos. Mesmo que os trabalhadores acabem por conseguir elevar os salários para compensar a inflação, eles já sofreram o golpe inicial. No Reino Unido, os salários reais só agora estão a voltar ao nível pré-crise energética – depois de quatro anos de rendimentos inferiores. Os salários reais na Alemanha ainda não recuperaram do nível pré-pandemia, após registarem o maior colapso desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Até nos EUA, que tiveram uma recuperação salarial mais rápida, a fatia do lucro no rendimento nacional está em nível recorde, e a participação dos salários num nível historicamente baixo. As margens de lucro em vários setores dispararam na última ronda de inflação dos vendedores, já estão próximas de um patamar histórico para a economia como um todo, e começarão a subir ainda mais em resposta aos bloqueios do Estreito de Ormuz.
Os lucros não se distribuem igualmente entre a população. Nos EUA, os 10 % mais ricos detêm 87 % das ações dos EUA. As avaliações do mercado bolsista para produtores de combustíveis fósseis e fertilizantes, por exemplo, estão a disparar e a ser celebradas por analistas como uma oportunidade de investimento maravilhosa. Os picos de preço do petróleo, gás, fertilizante e outros insumos estão prontos para gerar lucros extraordinários para os acionistas de empresas que não foram afetadas pelo bloqueio – os seus custos de produção não aumentaram, mas os preços dos produtos que produzem estão nas alturas.
A nossa investigação mostra que os biliões de lucros excessivos obtidos pelas empresas de petróleo e gás em 2022 foram para o 1 % mais rico dos americanos nesse ano por via das suas participações acionistas nessas empresas. Enquanto isso, a metade menos rica dos americanos, e a maior parte do resto do mundo, não viu quase nenhum desses benefícios, ao passo que carregou desproporcionadamente o peso do surto inflacionário. Os jornais já calculam biliões de lucros excessivos para a indústria de energia este ano, o que gerará uma desigualdade ainda maior se não houver impostos sobre esses lucros extraordinários.
Existe uma ameaça concreta de que muitos consumidores não só terão que pagar mais, como serão totalmente excluídos do mercado de bens. A escassez pode despedaçar sociedades e tem efeitos de contágio internacionais. Isto já é uma realidade nos importadores de combustível mais expostos na Ásia. As economias desenvolvidas que compram o que resta nas cadeias de abastecimento globais deixarão as populações dos países em desenvolvimento sem acesso a estes bens. O poder de compra per capita médio da União Europeia em dólares correntes (a métrica relevante para a compra de importações) é 15 vezes maior que o da Ásia do Sul (o do Reino Unido é 18 vezes maior). Enquanto a gasolina se tornará mais cara na Europa – o que já é um problema por si só – a capacidade de transportar pessoas e mercadorias em muitas partes da Ásia está a deteriorar-se rapidamente. O Sri Lanka acabou de declarar uma semana de trabalho de quatro dias para economizar combustível.
O mais preocupante é a escassez de alimentos. As perturbações provocadas pela Covid, a guerra na Ucrânia e tudo o que se lhes seguiu, agravado pelas alterações climáticas, apagaram mais de uma década de progresso no combate à fome mundial. Mas isso foi uma crise de preços dos alimentos – não houve falta física de alimentos a nível global. Agora, com cerca de 40 % das exportações de fertilizante em risco justamente quando mercados-chave, dos EUA à Índia, estão na época de plantação, o declínio da produção alimentícia na próxima colheita é um risco real. O que se manifestará como um choque de preços no Norte Global pode-se transformar numa crise de escassez alimentar real nas regiões dependentes de importação no Sul Global.
A materialização de tudo isto depende, naturalmente, de quanto tempo durarão as interrupções. Mas medidas como a adotada no Sri Lanka, que efetivamente encolhem a economia para adequá-la a uma oferta menor, devem disparar alarmes em todo o mundo.
A “inflação dos vendedores” só beneficia as empresas enquanto a destruição da produção não for excessiva. Se um encerramento prolongado do Estreito de Ormuz aprofundar a escassez e muita produção parar por falta de insumos, a recessão que se seguirá pode também atingir os lucros. Isso certamente geraria desemprego, o que, por sua vez, dificultaria que os salários acompanhassem a inflação. Assim, o pior cenário do ponto de vista macroeconómico é a estagflação. Enquanto algumas ações prosperam com os lucros da guerra, o mercado de ações como um todo poderia perder muito valor, e as taxas de default de crédito poderiam subir, com sérios riscos para a estabilidade financeira.
Tudo isso desencadeará grandes repercussões políticas. Observando a última crise, a extrema-direita parece ser a provável vencedora. Mas o derrotismo não deve dominar o debate. O momento de agir é agora. O que é óbvio e necessário é pôr termo a esta guerra ilegal e não ser cúmplice dela. As consequências já em curso precisam de ser atacadas o mais rapidamente possível. A lição da última crise foi a necessidade de preparação. Mas os governos falharam em agir. Agora estão encurralados e precisam de intervir o quanto antes, usando todas as alavancas disponíveis para conter os choques, em vez de os deixar propagar-se pelas nossas economias e partir as nossas sociedades.
O conjunto de instrumentos inclui tudo, desde o escoamento de reservas (já em prática) e tetos de preços grossistas nos mercados de matérias-primas – ambos coordenados multilateralmente –, até limites às margens ao longo da cadeia de abastecimento, para conter a inflação dos vendedores, e tetos de preço a retalho para bens essenciais, com preços de mercado normais para os restantes bens. Para enfrentar o risco de escassez física, protocolos de racionamento justo devem ser elaborados. Se nada disso for necessário, podemos ficar aliviados. Mas, se for, é melhor já termos estes mecanismos prontos.
Isabella Weber é professora associada de Economia na Universidade de Massachusetts Amherst. Gregor Semieniuk é professor associado na Escola de Políticas Públicas e no Departamento de Economia da Universidade de Massachusetts Amherst e dedica-se à investigação sobre a economia da mitigação das alterações climáticas. Publicado no The New Statesman a 21 de Março de 2026 Tradução de Diogo Machado.